Oficina de Alfaiataria do Passado

✂️ Oficina de Alfaiataria do Passado — quando o ofício se aprendia ao lado do mestre
Ainda me lembro das velhas oficinas de alfaiataria, onde mal se entrava sentia-se logo o cheiro do tecido, da madeira das mesas e do óleo das máquinas. Havia fatos pendurados pelas paredes, rolos de pano empilhados, linhas de todas as cores e tesouras grandes que pareciam pesar uma arroba. Ao fundo estava o mestre alfaiate, fita métrica ao pescoço, a marcar um casaco ou a acertar uma manga. E à volta dele andavam os rapazes mais novos, alguns quase ainda crianças, que ali começavam a aprender um ofício para a vida.
Naquele tempo não se aprendia só com explicações. Aprendia-se a olhar. O rapaz novo começava por varrer a oficina, arrumar os tecidos, separar botões, levar recados e enfiar linhas nas agulhas. Depois começava a alinhavar, a fazer bainhas e a pregar botões. Só muito mais tarde é que o mestre o deixava mexer numa peça boa. E quando alguma coisa saía torta, não havia grande conversa: descosia-se tudo e fazia-se novamente. O mestre dizia muitas vezes: “Quem quer aprender depressa acaba por aprender mal.”
Lembro-me de um rapaz chamado Joaquim que entrou numa oficina com doze ou treze anos. Era magro, calado e tinha umas mãos que pareciam grandes demais para a idade. Nos primeiros tempos passava mais horas a observar do que a coser. Ficava de pé ao lado da mesa enquanto o mestre riscava o tecido com giz. Via como se tiravam as medidas, como se dobrava o pano e como a tesoura seguia o risco sem hesitar. Um dia perguntou ao mestre quando é que poderia cortar um fato sozinho. O velho respondeu: “Quando deixares de ter vontade de cortar depressa.”
Na oficina havia vários rapazes. Uns trabalhavam nas máquinas de pedal, outros cosiam à mão e outros preparavam forros e bolsos. O som era quase sempre o mesmo: o pedal da Singer a trabalhar, a tesoura a abrir e fechar sobre a mesa e alguém a pedir linha preta, agulhas ou mais luz junto da janela. Falava-se pouco quando havia trabalho apertado. Um erro num tecido caro podia significar perder dinheiro que não abundava.
