A Largada de Toiros. Quando a coragem dura até o toiro virar a esquina

🐂 A Largada de Toiros — quando a coragem durava até o toiro virar a esquina

Cá por estas terras, uma largada de toiros nunca foi coisa para se ver com muita confiança no corpo. Antes do toiro aparecer, havia sempre meia dúzia de homens encostados à parede a dizer que aquilo não metia medo nenhum, que já tinham corrido muitas e que sabiam perfeitamente para onde haviam de fugir. Depois abria-se a rua, ouvia-se a gritaria ao fundo e, mal o animal virava a esquina, a valentia começava logo a procurar uma janela, um muro ou uma varanda onde se pendurar.

A fotografia lembra-me uma tarde dessas. A rua estava cheia, havia gente nas janelas e alguns rapazes cá em baixo a fazer-se fortes. Um deles ainda dizia: “Deixem-no vir, que eu sei lidar com isto.” Pois sabia. Assim que o toiro apareceu, foi dos primeiros a tentar subir por uma parede que, cinco minutos antes, nem ele sabia que era capaz de escalar. Um agarrou-se à varanda, outro meteu os pés no rebordo de uma janela e havia um terceiro pendurado só por um braço, a pedir a todos os santos que o bicho não resolvesse parar mesmo por baixo dele.

E depois havia sempre aquele que não tinha encontrado onde subir. Esse corria.

Corria mesmo.

Não era aquela corrida bonita de atleta. Era uma corrida com os braços aos saltos, o chapéu perdido para trás e as pernas a trabalharem mais depressa do que alguma vez tinham trabalhado na vida. E quem estava às janelas ria-se, gritava e dava conselhos como se fosse muito fácil:

— “Vai para a esquerda!”

— “Sobe aí!”

— “Olha o toiro!”

Como se o homem não soubesse já muito bem que o toiro vinha atrás.

Estas largadas tinham, e ainda têm em vários pontos de Portugal, aquela mistura estranha entre festa, adrenalina e disparate. Há quem participe por tradição, quem vá para mostrar coragem e quem simplesmente goste de assistir de um lugar seguro. Mas uma coisa é certa: quando um toiro anda solto numa rua, deixa de haver grandes teorias sobre valentia. O instinto manda mais do que a conversa.

Também não vale a pena pintar tudo como se fosse apenas brincadeira. Um toiro é um animal forte, imprevisível e capaz de provocar ferimentos graves. Quem entra numa largada sabe, ou devia saber, que aquilo tem risco. A fotografia é cómica porque apanha precisamente o momento em que cada um procura salvar a própria pele, mas basta um passo mal dado para a graça acabar depressa.

O curioso é que estas imagens contam muito sobre as festas populares portuguesas. As ruas cheias, as pessoas às janelas, a algazarra, os amigos a desafiarem-se uns aos outros e aquele segundo de silêncio antes do toiro aparecer.

Depois é cada um por si.

Uns correm.

Outros saltam.

Outros descobrem capacidades de escalada que nunca imaginaram ter.

E, quando finalmente o toiro passa, descem todos outra vez como se nada tivesse acontecido.

O primeiro comentário costuma ser:

— “Eu nem tive medo.”

Pois não.

Foi por isso que ficou pendurado na varanda como roupa a secar.