OS PEDREIROS DE ANTIGAMENTE. Quando os andaimes eram feitos de madeira!
Tenho muitos anos de pedreiro em cima do lombo e, quando olho para uma fotografia destas, não vejo apenas uns homens pendurados numa parede. Vejo o tempo em que se levantava uma casa quase só com as mãos, uma colher de pedreiro, um balde e meia dúzia de tábuas. Em muitas obras pequenas não havia aqueles andaimes metálicos que hoje chegam num camião, todos direitos, com plataformas próprias, guardas e escadas. Fazia-se o andaime ali mesmo. Arranjavam-se barrotes e pranchas de madeira, escolhiam-se as peças mais direitas e resistentes e começava-se a montar uma estrutura encostada à parede. Pregava-se, travava-se e reforçava-se como se podia e como o mestre tinha aprendido com outro mestre antes dele. Depois punham-se as tábuas onde os homens haviam de trabalhar. E antes de subir havia sempre um que punha o pé em cima e dizia: “Espera aí… deixa cá ver se isto aguenta.”

🧱 OS PEDREIROS DE ANTIGAMENTE — quando os andaimes eram feitos de madeira, coragem e muito juízo
Eu ainda trabalhei em obras onde uma tábua era o nosso corredor a três e quatro metros do chão. Nada de andar distraído. Um homem aprendia depressa onde punha os pés. Havia tábuas que vergavam, outras que rangiam e outras que já tinham levado tanta argamassa em cima que pesavam quase tanto como nós. O servente ficava muitas vezes cá em baixo a fazer massa, a encher os baldes e a fazê-los chegar aos homens que estavam lá em cima. Lá no alto, um recebia o balde, outro espalhava a massa e o pedreiro ia compondo a parede, palmo a palmo. E quando era preciso subir mais um pouco, o andaime também crescia com a obra. Mais dois barrotes, outra prancha, mais um travamento e lá continuávamos.
Não vou agora dizer que aquilo era melhor, porque não era. Era perigoso e muito. Hoje existem regras de segurança por uma razão. Naquele tempo vi homens trabalharem em alturas onde agora ninguém devia trabalhar sem proteção adequada. Não havia capacete em muitas obras, não havia arnês, não havia guarda-corpos como há hoje e, muitas vezes, entre o pedreiro e o chão havia apenas uma tábua estreita e a experiência de muitos anos. Um passo em falso podia mudar uma vida inteira. E nós sabíamos disso. Talvez por isso ninguém brincasse muito quando estava lá em cima. Havia conversa e havia piadas, claro, mas os pés andavam sempre atentos.
Recordo-me de um mestre velho que trabalhou comigo e que dizia uma coisa que nunca esqueci: “O andaime não tem medo de cair. Quem tem de ter juízo és tu.” Antes de começar o dia, passava os olhos pelas madeiras, dava umas pancadas nos pregos, abanava os apoios e só depois deixava subir o pessoal. Se uma tábua lhe parecia fraca, ia para baixo. “Poupar numa tábua para depois gastar num homem é negócio de parvo”, dizia ele. Homem duro, poucas palavras, mas naquela matéria tinha toda a razão.
Ao meio-dia descíamos todos. Sentávamo-nos onde houvesse sombra, muitas vezes em cima de um saco vazio de cimento ou numa pedra. Tirava-se o pão, umas azeitonas, queijo, chouriço ou aquilo que tivesse vindo de casa. As mãos estavam ásperas da cal e do cimento, a roupa branca de pó e os braços pesados. Depois de comer ainda havia cinco minutos para encostar as costas à parede. Mas alguém acabava por dizer: “Vá lá, que isto não se acaba sozinho.” E lá subíamos novamente pelas tábuas.
Quando chegávamos ao fim de uma parede e olhávamos cá de baixo, havia um orgulho difícil de explicar. Aquela parede tinha passado pelas nossas mãos inteira. A massa tinha sido feita cá em baixo, os baldes tinham subido um a um, cada pedra ou tijolo tinha sido colocado no sítio e o andaime tinha acompanhado tudo desde o chão até ao telhado.
Hoje olho para esta fotografia e quase consigo ouvir outra vez o som da obra: o martelo na madeira, a colher de pedreiro a raspar, o balde a bater numa prancha e alguém lá de cima a gritar:
— Ó rapaz, manda cá mais massa!
E penso nos milhares de homens que levantaram casas, escolas, igrejas e paredes por este país fora daquela maneira.
Com pouca máquina.
Com pouca proteção.
Com muito trabalho.
E, sobretudo, com um respeito enorme por um ofício que não admitia distrações.
