Quando uma batida na porta dizia logo quem vinha visitar

🚪 Quando uma batida na porta dizia logo quem vinha visitar
Ainda me lembro de portas assim, pesadas, de madeira grossa, daquelas que rangiam no inverno e aqueciam ao sol no verão. Não havia campainhas com câmaras, telefones à porta nem ninguém a perguntar quem era por um ecrã. Havia uma aldraba de ferro, muita força na mão e um código que toda a gente da casa conhecia. Uma pancada para o primeiro andar, duas para o segundo, três para o terceiro e quatro para o rés-do-chão. Parece estranho a quem nasceu noutro tempo, mas funcionava. Quem chegava puxava aquela mão de metal e dava as pancadas certas, com intervalos bem marcados. Lá dentro, cada família sabia imediatamente se a visita era para si. E até pelo modo de bater muitas vezes se adivinhava quem estava à porta: a vizinha batia devagarinho, o carteiro dava pancadas secas, os rapazes novos quase arrancavam a aldraba e, quando era alguém da família que chegava de longe, parecia que a porta inteira acordava.
