Quando uma batida na porta dizia logo quem vinha visitar

🚪 Quando uma batida na porta dizia logo quem vinha visitar

Ainda me lembro de portas assim, pesadas, de madeira grossa, daquelas que rangiam no inverno e aqueciam ao sol no verão. Não havia campainhas com câmaras, telefones à porta nem ninguém a perguntar quem era por um ecrã. Havia uma aldraba de ferro, muita força na mão e um código que toda a gente da casa conhecia. Uma pancada para o primeiro andar, duas para o segundo, três para o terceiro e quatro para o rés-do-chão. Parece estranho a quem nasceu noutro tempo, mas funcionava. Quem chegava puxava aquela mão de metal e dava as pancadas certas, com intervalos bem marcados. Lá dentro, cada família sabia imediatamente se a visita era para si. E até pelo modo de bater muitas vezes se adivinhava quem estava à porta: a vizinha batia devagarinho, o carteiro dava pancadas secas, os rapazes novos quase arrancavam a aldraba e, quando era alguém da família que chegava de longe, parecia que a porta inteira acordava.

Naquele tempo, uma casa podia ter várias famílias, uma em cada andar, e aquela simples placa junto à porta resolvia aquilo que hoje exigiria vários botões, fios e aparelhos. Lembro-me de ir com a minha mãe visitar uns parentes e ela dizer antes de bater: “Olha que são duas, não te enganes.” Eu ainda pequeno queria sempre ser eu a puxar a aldraba. Levantava aquela mão de ferro, que me parecia pesar uma arroba, e dava duas pancadas: TOC… TOC. Ficávamos à espera. Passado pouco tempo ouvia-se lá dentro uma janela abrir, passos pelas escadas e uma voz a perguntar quem era. Não se abria a porta a correr. Primeiro vinha a conversa de cima para baixo, depois a chave a rodar devagar e finalmente aparecia alguém com um sorriso e aquele inevitável “entrem, não fiquem aí à porta”. E entrávamos. Muitas vezes para uma visita de meia hora que acabava três horas depois, com café, pão, queijo e tudo o que houvesse em casa.

Hoje olhamos para uma porta destas e parece quase uma peça de museu. Mas para quem viveu esse tempo há muito mais ali do que madeira, metal e uma placa envelhecida. Há vozes nas escadas, passos, vizinhos que se conheciam pelo nome e portas que se abriam muito mais vezes umas para as outras. Aquela mão de ferro não servia apenas para chamar alguém. Era o início de uma visita, de uma conversa e, muitas vezes, de uma tarde inteira passada à mesa. E há coisas curiosas na vida: agora temos campainhas inteligentes que mostram quem está do outro lado da porta, mas talvez saibamos muito menos sobre quem vive do outro lado da parede.

Advertisement